Veja desde o primeiro episódio http://invernocontraste.blogspot.com/2008/12/1-episdio.html
"desespero"
Açougue. “Olá senhor, gostaria de qual carne hoje?”. “Que tal de criança? Ouvi dizer que aqui tinha”. “Seu senso de humor me enoja”. Percebo que ele se irritou com meu comentário. Exatamente o que esperava. Decido continuar. “Não me faça provar, vai ser pior para sua reputação já suja”. O açougueiro acredita no blefe. Ele se dirige a um aposento nos fundos e faz um sinal me chamando.
O cheiro de sangue e carniça é evidente. Cachorros e gatos pendurados sem a pele causam em mim um sentimento, no melhor dos casos, sádico. Na mesa, coelhos manchados prontos para virarem sopa. Ele começa a gaguejar. “Eu vi. Eu vi o assassino morder um dedo da criança. Acho que ele é canibal”. Nos seus olhos posso ver medo, mas decido continuar atento a tudo.
Rua. Melhor fonte de informações, menos na Escócia, principalmente numa pequena vila. O máximo que consigo é o nome do pai da criança. Dirijo-me a residência do garoto. Batidas na porta indicam minha presença na casa. O rapaz, não muito mais velho que eu, mostrava-se abatido, em prantos. “O seu filho que foi assassinado ontem?”. “Se as roupas dele estão abandonadas e ensangüentadas, acredito que seja ele! Aquela amiga dele tinha que dar merda, filha da prostituta arrebentada!”.
Dália. Encontro ela na estalagem. Ela percebe minha brabeza pela expressão do meu rosto. Ela me conhecia tão bem, meu amor de adolescência. “Porque você não contou da sua filha?”. “Eu não achei necessário..”. Ela percebe que continuo firme na indagação. “Ela tem 8 anos, era muito amiga do menino morto”. “Quero conversar com ela”.
Na casa dela, não achamos a menina. Por ser à tarde, isso é normal. Chá. A temperatura é relaxante. Ela pega na minha mão, assim como fazíamos na juventude. Seu rosto machucado não tirou o brilho de seus olhos. Encará-los enche meu coração de paz. Agora sei o porquê do retorno instintivo para casa. Preciso dela para continuar de onde parei, antes da cruzada.
Sublimemente rápido. Seu cabelo encostado em meu peito nu faz cócegas. Perfeito. Constante. Quente. Ela perdeu a virgindade comigo e eu com ela tempos atrás. Inconscientemente me mantive fiel, ela foi a primeira e será a única para mim. Posso ver no seu sorriso, o carinho que ela sente por mim.
Dália queria mais e mais. Insaciável. Virou-se indicando o que queria fazer. Aquilo me lembrou o padre, o que ele fazia comigo. Levantei e comecei a me vestir. Ela percebe minha indignação e fica com remorso. Amo-a. Logo estou com remorso também. Peço desculpa com meus olhos, ela consente.
Gritos de criança longínquos. A noite intensifica o terror. Saio. Lá fora percebo agitação perto da estalagem. Chegando perto, vejo uma bonequinha com respingos de sangue. Meu amor chega em seguida. Começa a chorar. Desespero.

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