"Escócia, finalmente."
1103.Escócia. Inverno. A manhã tomava terreno cada vez mais. O sol chegava, assim como eu. Em cima de um cavalo. Espada na bainha. Elmo na cabeça. Cruz no uniforme. Tudo indicava de onde vinha. Jerusalém. Sangue muçulmano velho interrompia o branco homogêneo da minha roupa.
A conquista da cidade santa deixara os cruzados famosos. Andei. Andei. O vilarejo ficava maior e maior. Um cheiro chega ao meu nariz. Fétido, familiar, era o açougue. A criatura grande e mórbida cortava a carne. Mais pestilento impossível. Na rua várias pessoas me olhavam com orgulho, como se o símbolo em meu peito fosse um troféu da vila.
Caminhando pela neve eu percebo coisas que marcaram minha infância. A cidade crescia. O povo não. As antigas gerações me conhecem. O filho do nobre morto. Um filho pobre de um cavaleiro falecido não tem espaço numa vila independente.
Estalagem. Meu ritual alcoólico diário pode novamente assentar-se em minha rotina. Peço uma. Duas. Três. Depois disso paro de contar. Pago por minha cama. Resolvo dar uma volta antes de descansar.
Tudo deserto. Posso ver uma senhora sentada na janela, me observando. Ignoro. Continuo minha rota sem destino. Logo vejo o padre aliciando uma criança de rua. A conquista o excitava, podia ver em seu rosto. Escuto latidos. É o açougueiro cortando cachorros para amanhã. Quase voltando, avisto-a.
Cabelos loiros. Pele excessivamente branca, misturando-se com a neve do chão. Lábios carnudos e expressivos. Bochechas marcadas por abusos e machucados. Era a Dália. Amiga de infância, agora inexplicavelmente atraente, alvo de minhas ânsias. Ela está com um cliente, exercendo a única coisa que pode.
Um homem de má fé abusa de seus direitos, o prazer em fazê-lo aumenta o terror de minha velha amiga. Eu puxo minha espada, atravesso o torso dele. Movimentos variados em seqüência, sadicamente mostro satisfação na morte, assim como a “donzela”. O sangue contrasta com o branco do inverno. Escócia, finalmente.

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