Veja desde o primeiro episódio http://invernocontraste.blogspot.com/2008/12/1-episdio.html
"sonhos"
Dormir. Não tão fácil quanto era de se esperar. A insônia atacava. Sonhos iam e vinham, mas não conseguia dormir. Posso sentir o tempo passar. De repente, o sono vence. O sonho torna-se cada vez mais nítido. Meu passado volta a assombrar o descanso noturno.
1085. Bandidos invadiam o castelo. Os aposentos de nossa família estavam mais e mais perto dos invasores. Batidas na porta. Meu pai e meu irmão mais velho brandiam suas espadas num esforço inútil em defender seus parentes. Minha mãe me escondeu num alçapão no meio do quarto. Com um tapete em cima, podia ver por uma fresta.
Sangue por todo lado. Meu irmão corria desesperado sem um de seus braços. Meu pai gozava de seus últimos momentos com honra lutando por algo sem salvação. O pescoço de minha mãe jorrava um vermelho quente. Pouco a pouco o barulho diminuiu. O sangue entrava pela fresta. Era como um renascimento, numa placenta não só materna como também paterna e fraterna. Quando o padre me tirou de lá, não tinha sentimento em meu rosto. Minha indiferença o assustava. A expressão final que o bandido realizara horas antes ficaria para sempre, em meu próprio rosto.
Cenário muda. Quarto do padre no mosteiro. “Abaixe a calça meu filho, quero mostrar amor por você”. Sem escolha, obedeci. Uma vez de muitas. O calor do corpo dele me enojava. Aquela posição era humilhante para mim. Todo mês a mesma coisa. Toda vez um banho de longa duração e preces por socorro diminuíam o asco que sentia por mim mesmo. Toda vez prometia que faria algo. Seria esse o motivo dessa volta instintiva à Escócia?
Dália me acorda. Posso ver a luminosidade lá fora. Sua expressão cansada demonstrava mais terror que o habitual. “Harold! Harold the Cunning! Acorde..”. Ela chama meu nome, abro meus olhos e demonstro o carinho que sinto. “Um menino desapareceu, encontramos apenas as roupas”. A ligação entre isso e o sonho me assombra.
Levanto e apronto minhas coisas. Um dia de investigação pela frente. Quando saio, vejo a gravidade da situação. Roupas pequeninas manchadas de um sangue escuro, uma espadinha de madeira lascada. A curiosidade mórbida das pessoas me causa nojo. O açougueiro olha com desdém, não mostra surpresa. Penso em várias coisas, principalmente do que foi feita a lingüiça de hoje. Escócia, sempre nunca o de sempre.

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